segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Diversidade genética e conservação do facheiro-da-praia

  Apesar dos cactos serem associados principalmente a ambientes secos, estas plantas também podem ser encontradas em boa parte do litoral brasileiro. Duas espécies do gênero Pilosocereus são especialmente comuns no litoral brasileiro: P. arrabidae e P. catingicola. Por serem frequentemente encontradas nas restingas, dunas e praias, ambas são popularmente conhecidas como "facheiro-da-praia". A espécie P. catingicola distribui-se quase que continuamente do Delta do Parnaíba (PI) até Salvador (BA); e a espécie P. arrabidae distribui-se de Santa Cruz de Cabrália (BA) até o estado do Rio de Janeiro.
  Ambas espécies são cactos arbustivos ou arborescentes com até 4 m de altura. Além de serem espécies pioneiras nos ambientes praianos, possuem um importante papel nas teias alimentares desses ecossistemas. Suas flores (noturnas) possuem odor forte e são polinizadas por morcegos, que bebem seu néctar. Já seus frutos fazem parte da alimentação de morcegos, aves e insetos, que por sua vez contribuem para a dispersão das sementes.

Facheiro-da-praia (Pilosocereus arrabidae, Cactaceae): flor e fruto.
  Apesar de possuir distribuição ampla, o facheiro-da-praia já não é mais tão facilmente encontrado em algumas regiões. Isto se deve à rápida expansão de cidades litorâneas e da instalação de grandes empreendimentos turísticos, que passam a ocupar seu habitat e muitas vezes provocam fortes declínios populacionais ou mesmo sua extinção local. Apesar de não se encontrar em ameaça de extinção, uma das espécies (P. arrabidae) tem sido incluída na categoria de “quase ameaçada” (NT – Near Threatened) pela IUCN desde 2002, devido à perda de habitat.
  Desde setembro de 2013, membros da Rede Nacional de Pesquisa e Conservação de Cactáceas (Recactos) em parceira com alunos e professores da Universidade Federal do Ceará, vêm desenvolvendo um projeto destinado à conservação das duas espécies de facheiro-da-praia. O projeto, patrocinado pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza terá vigência de dois anos e visa avaliar a diversidade genética de suas duas espécies, como forma de subsidiar futuras avaliações do grau de ameaça bem como o desenvolvimento de ações conservacionistas.

Equipe do projeto obtendo amostras de tecido e fotografando espécimes do facheiro-da-praia (Pilosocereus arrabidae)
nas restingas do município de Araruama (RJ).
  A análise da diversidade genética está sendo feita a partir do DNA extraído de pequenas amostras de tecido de ambas espécies. Segundo o responsável técnico pelo projeto, Prof. Marcelo Teles (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará) a equipe conta atualmente com cerca de 590 amostras de tecido do facheiro-da-praia, obtidas ao longo de toda sua distribuição geográfica. Atualmente o projeto encontra-se em fase de processamento e análise das amostras de DNA.
  Ao fim do projeto espera-se contribuir para a evolução do conhecimento a respeito da genética das cactáceas brasileiras (ainda incipiente), obter um panorama da diversidade genética do facheiro-da-praia em diferentes regiões do litoral brasileiro, conhecer as relações genealógicas entre linhagens de diferentes populações, propor áreas prioritárias de conservação para cada espécie e gerar outros dados úteis para a conservação dos cactos brasileiros, contribuindo assim para a implementação do PAN Cactáceas.